Foi identificada uma única tese de doutorado enfocando a questão da vivência da "maternidade lésbica", num estudo etnográfico comparativo realizado nas cidades de Campinas (SP) e Toronto (Canadá), confrontando-se também com a violência no âmbito familiar e doméstico. O estudo comparativo deparou-se com a violência praticada por familiares, parceiras e ex-parceiros.
Os casos acompanhados no contexto brasileiro referem-se a famílias não planejadas, formadas por mulheres com passado heterossexual que se envolveram em relações lésbicas e trouxeram seus filhos para essas relações. No contexto canadense, os casos dizem respeito a famílias planejadas: as mulheres lésbicas optaram pela maternidade através do uso de tecnologias reprodutivas. O perfil em ambas as localidades envolve mulheres brancas, de classe média e, na maioria, com nível superior de escolaridade.
Ocorrência de situações violentas protagonizadas por familiares, ex-parceiros e parceiras contra mães lésbicas foi evidenciada em boa parte dos casos analisados no Brasil.
Para a autora do estudo, num contexto marcado pela falta de respaldo legal, moral e social, o estereótipo da mãe frágil e passiva coloca as mães biológicas em uma posição desprivilegiada nas relações de poder entre duas mulheres numa relação lésbica. Nesse contexto, a mãe biológica se vê pressionada a renunciar à sua (homo) sexualidade, pela família de origem, pelos ex-maridos e suas famílias, e pela justiça, para que estes lhes favoreçam a guarda dos filhos. Nos casos em que houve violência no interior do casal, a autora sugere que as mulheres poderiam não ter a intenção consciente de construírem uma relação baseada em desigualdade de poder. Entretanto, na vivência cotidiana, seus valores podem ser abarcados por um modelo maior, hierárquico, quando não encontram lugar ou oportunidade para serem expressados, vivenciados e legitimados. Diante da instabilidade de um "não-lugar" dentro de uma relação (no caso, o lugar de companheira da mãe na estrutura familiar) e da ausência de suporte legal e social, a mulher pode resgatar um lugar definido e legitimado em torno de estereótipos, como a "mãe santificada" e a "lésbica violenta".
No contexto canadense, a violência doméstica é coibida por políticas públicas e campanhas organizadas por ONG. No entanto, apesar das garantias legais em torno da maternidade lésbica e da disponibilização de tecnologias reprodutivas para essas mulheres, permanece um referencial tradicional e essencialista de maternidade, que atua na constituição de hierarquias entre mães biológicas e não biológicas, reparadas através de estratégias simbólicas, como a escolha de um doador com características semelhantes às da mãe não biológica ou mesmo a dedicação integral do tempo dessa mãe para com o cuidado da criança. Se no Brasil esse referencial transforma a mãe biológica em vítima de violência, no Canadá muitas vezes leva a mãe não biológica a abandonar sua vida profissional em busca da legitimação de sua maternidade.
Fonte: SOUZA, E. R. Necessidade de filhos: maternidade, família e (homo)sexualidade. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas.
Os casos acompanhados no contexto brasileiro referem-se a famílias não planejadas, formadas por mulheres com passado heterossexual que se envolveram em relações lésbicas e trouxeram seus filhos para essas relações. No contexto canadense, os casos dizem respeito a famílias planejadas: as mulheres lésbicas optaram pela maternidade através do uso de tecnologias reprodutivas. O perfil em ambas as localidades envolve mulheres brancas, de classe média e, na maioria, com nível superior de escolaridade.
Ocorrência de situações violentas protagonizadas por familiares, ex-parceiros e parceiras contra mães lésbicas foi evidenciada em boa parte dos casos analisados no Brasil.
Para a autora do estudo, num contexto marcado pela falta de respaldo legal, moral e social, o estereótipo da mãe frágil e passiva coloca as mães biológicas em uma posição desprivilegiada nas relações de poder entre duas mulheres numa relação lésbica. Nesse contexto, a mãe biológica se vê pressionada a renunciar à sua (homo) sexualidade, pela família de origem, pelos ex-maridos e suas famílias, e pela justiça, para que estes lhes favoreçam a guarda dos filhos. Nos casos em que houve violência no interior do casal, a autora sugere que as mulheres poderiam não ter a intenção consciente de construírem uma relação baseada em desigualdade de poder. Entretanto, na vivência cotidiana, seus valores podem ser abarcados por um modelo maior, hierárquico, quando não encontram lugar ou oportunidade para serem expressados, vivenciados e legitimados. Diante da instabilidade de um "não-lugar" dentro de uma relação (no caso, o lugar de companheira da mãe na estrutura familiar) e da ausência de suporte legal e social, a mulher pode resgatar um lugar definido e legitimado em torno de estereótipos, como a "mãe santificada" e a "lésbica violenta".
No contexto canadense, a violência doméstica é coibida por políticas públicas e campanhas organizadas por ONG. No entanto, apesar das garantias legais em torno da maternidade lésbica e da disponibilização de tecnologias reprodutivas para essas mulheres, permanece um referencial tradicional e essencialista de maternidade, que atua na constituição de hierarquias entre mães biológicas e não biológicas, reparadas através de estratégias simbólicas, como a escolha de um doador com características semelhantes às da mãe não biológica ou mesmo a dedicação integral do tempo dessa mãe para com o cuidado da criança. Se no Brasil esse referencial transforma a mãe biológica em vítima de violência, no Canadá muitas vezes leva a mãe não biológica a abandonar sua vida profissional em busca da legitimação de sua maternidade.
Fonte: SOUZA, E. R. Necessidade de filhos: maternidade, família e (homo)sexualidade. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas.



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